O corpo como território do sensível 22/07

O CORPO COMO TERRITÓRIO DO SENSÍVEL

22 DE JULHO – DAS 10H ÀS 18H

Workshop inspirado na poética da artista Lygia Clark, é um convite para vivenciar as paisagens afetivas do corpo a partir do encontro entre arte e clínica. Voltado para artistas, educadores, terapeutas e interessados em práticas artísticas de fronteira.

Será composto de duas partes:

PAISAGENS AFETIVAS (manhã)
A partir da noção de marca corporal presente nas práticas psicomotoras, serão propostas algumas práticas ligadas ao campo sensível do corpo e ao contato com memórias pessoais. Exercícios em dupla ou trio serão realizados, a partir da exploração e toque no corpo.

A POÉTICA DE LYGIA CLARK (tarde)
O grupo realizará coletivamente uma das proposições criadas pela artista e depois explorará alguns objetos relacionais trabalhados por ela na Estruturação do Self.

OBS: O workshop é divido em duas partes intimamente interligadas. No entanto, caso haja necessidade, é possível participar de apenas uma.

Lygia Clark – (1920-1988)
Juntamente com Hélio Oiticica, Lygia Pape, Ferreira Gullar e outros participa do Movimento Neoconcreto no Rio de Janeiro.
Com a série Bichos, de 1960, cria construções metálicas geométricas que requerem a co-participação do espectador. Reside em Paris entre 1970 e 1976, período em que leciona na Sorbonne. Lá cria uma série de proposições coletivas com materiais que estabelecem relação entre os participantes. Retorna para o Brasil em 1976; dedica-se ao estudo das possibilidades terapêuticas da arte a partir dos objetos relacionais na Estruturação do Self.

Lugares já realizados:

RIO DE JANEIRO
Casa do Cortejo (2016)
Caixa Cultural (2016)
Espaço MOVA (março e julho de 2016)
Casa do Humaitá (2015)
Sede das Cias (2015/2013);
Espaço Cósmico (2015);
Sesc Copacabana – Ocupação Teatro Inominável (2013/2014).

SÃO PAULO
Dançarilhos (março, julho e outubro de 2016; março e maio de 2017)

GRUPOS CONTINUADOS
Espaço Fixos e Fluxos (SP) desde março de 2016.
Casa do cortejo (RJ) desde abril de 2017.

Coordenação:

Maíra Gerstner
Artista, educadora e terapeuta. É formada em Artes Cênicas pela USP e mestre em Comunicação pela UFRJ. Tem formação em psicomotricidade (Instituto Anthropos/RJ) e estudou a obra de Lygia Clark com Gina Ferreira (RJ), Lula Wanderley (RJ) e Santiago Garcia Navarro (ARG). Foi professora temporária na EBA-UFRJ (2015/2016) e vem realizando o workshop “O corpo como território do sensível” desde 2013. Coordena diversas práticas na fronteira entre a arte e a clínica (workshops, grupos continuados e atendimentos individuais) pela Fios do ser (www.fiosdoser.com.br).

INVESTIMENTO:
200,00 reais até dia 14/07
230,00 reais até dia 19/07
250,00 depois de 19/07

E por meio período de trabalho:
120,00 reais até 14/07
125,00 reais até 19/07
130,00 depois de 19/07.

INSCRIÇÕES:
fiosdoser@gmail.com
(11) 95923 4562 (whatsapp)

MAIS INFORMAÇÕES:
http://www.fiosdoser.com.br/
https://www.facebook.com/fiosdoser

E ela me disse: “O objeto é um aliado”.

por Maíra Gerstner

Foto tirada durante um atendimento individual.

Cada encontro é sempre uma deriva. Não se sabe ao certo o que esperar, nem de um lado, nem do outro. Mas cada encontro se dá entre corpos e se configura no instante. E é nele que podemos realmente criar algo. Os encontros individuais que venho realizando pela Fios do ser com  pessoas que procuram este trabalho com o objetivo de fazer contato com alguma questão a partir da investigação de uma poética artística têm me ensinado que a clínica, assim como a arte, acontecem em algum lugar muito sutil, mas que no encontro com o outro, há uma espécie de testemunho.

Eu busco escutar. Escuto histórias, corpos, convido ao contato do sentir. De como a palavra faz reverberar no corpo. Junto com este outro, cliente, provoco outras possibilidades de olhar para este acontecimento vida, tão misterioso. E para o qual devemos fazer total reverência. Como dizia minha querida terapeuta carioca Paula Galvão “A vida, ela é a grande senhora”. Foi Paula quem me falou de Elizabeth Kubler-Ross, médica suíça que dedicou sua vida na pesquisa do morrer. Foi Paula quem me deu o primeiro livro de Suely Rolnik (dedicado à Lygia Clark). Foi Paula que me ouviu falar o quanto gostaria de fazer um trabalho em que pudesse juntar processos artísticos a um contorno terapêutico. Foi também Paula que me ouviu chorar por Bel, amiga querida que adoeceu e que me fez olhar com outros olhos para o rumo que minha vida artística iria tomar. Foi com o apoio de Paula, que pude constatar que o corpo tem uma sabedoria. Hoje meu corpo conhece esse lugar de cuidado que o corpo de um terapeuta pode trazer.

“O corpo do terapeuta é um objeto simbólico”, uma das premissas  de trabalho mais ouvidas durante o curso de psicomotricidade no Instituto Anthropos, no Rio de Janeiro, diz respeito a esse movimento de relação que é o acontecimento terapêutico.  A formação em psicomotricidade me ajudou a compreender que não há tanta diferença entre arte e clínica quando falamos em processo. O corpo é processo. A arte é processo. Mas vivemos em um mundo em que tanto um quanto o outro foram cindidos de suas necessidades vitais de ser apenas isso, processo, construção e cuidado.

Quando ela, a cliente, me diz que o objeto é um aliado, faz referência não só aos objetos relacionais de Lygia Clark usados em algumas sessões, mas também alguns objetos que foram usados como disparadores de outros processos: barbantes, linhas, papéis.  Tais objetos, nas mãos dela, sempre me surpreendiam, pois tinham consigo sentidos muito particulares de ser. Relacionais, aliados, porque não importam o que representam, mas o que fazem presentificar no aqui e agora.

O que me convoca para estar com o outro, numa dimensão terapêutica, é muito próximo da convocação de um artista para a criação de algo. Mas no setting diluímos a obra. Ela se torna a própria vida. Ela é a grande senhora. E é com ela que devemos seguir, confiantes, de que o mistério, um dia, há de se revelar.

Carta a Lygia Clark

    Por Maíra Gerstner

Querida Lygia,

Demorei a te escrever.

Tenho trabalhado com o material que você nos deixou. Com o seu legado.

É como seu eu me sentisse responsável por ele. E tenho percebido que outros também se sentem. É bom saber que hoje podemos nos sentir menos sós do que você se sentiu, Lygia.

Eu já te agradeci tanto, Lygia, pela coragem que você teve. De avivar seus abismos, atravessá-los e criar algo que não tem nome. Este legado é o maior. A sua coragem de ser o que se é. Sem as catalogações dos sistemas.

Mas, Lygia, eu queria te contar de um grupo que tenho trabalhado.

Estamos em um momento especial. Há algo em torno de você. Mas há algo que é nosso. Um emaranhado. Você é nossa Ariadne, nossa aracniana, nossa fiadeira, nossa mulher velha.

Lygia eu tenho me perguntado sobre o que ainda pode a experiência estética e sobre esse campo que você abriu. Não me interessa hoje, Lygia, entender onde começa a clínica ou onde começa a criação. O que me interessa, Lygia, mestra, é compreender a linguagem como passagem. Como algo que pode nos fazer viver melhor. Seja lá o que se quiser viver, mas fazer para a si a sua curadoria de vida.

Eu agradeço a você e a esse grupo, Lygia. São pessoas que estão em contato com essa sua vibração que nos atravessa, atravessa nossos corpos. É um sopro de vida, é imanente, é para além daquilo que o mal da representação nos guardou.

É poder afirmar a vida.

É tão bom poder contar contigo, Lygia.

E saber que juntos, somos mais fortes.

Conto com você, agora, para poder seguir com este trabalho.

Afirmando que a arte também pode ser clínica. Também pode ser tantas coisas.

Cabe a cada um de nós encontrar para si a terceira margem do rio.

Sou grata a você por ter me ajudado neste encontro.

Espero agora poder contribuir para que outras pessoas tenham os seus.

14 de outubro de 2016

PS: o grupo citado no texto realiza um trabalho continuado com coordenação minha no Espaço Fixos e Fluxos (Parque da Previdência, São Paulo) desde março de 2016.

 

A “curadoria de si” com os alunos da EBA-UFRJ

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*fotos dos trabalhos desenvolvidos pelos alunos Julia Faria, Lery Guerato e Felipe Costa.

por Maíra Gerstner

Depois de um incêndio no prédio em que estudavam, os alunos do curso de cenografia e indumentária da EBA-UFRJ, para os quais dei aula durante dois anos, ficaram sem sala de aula, sem materiais, sem espaço. Ficaram quase sem esperança. Há já presente situação de precariedade era uma realidade antes mesmo do incidente. Fomos todos, alunos e professores, realocados. Cinco semanas se passaram até que pudemos, finalmente, voltar a trabalhar.

Voltaram muito abalados. Muito tristes. Eu, como professora, entendi ali como a clínica que venho pensando poderia de fato acontecer. Era preciso cuidar daqueles jovens corpos. Era preciso que eles recuperassem algo de fundamental que, por pouco, poderia ir para o ralo, juntamente com toda a água que foi necessária para apagar o fogo que por ali havia passado.

Resolvi então arriscar: mais importante do que qualquer conteúdo dentro da disciplina que eu ministrava, “Cena e dramaturgia IV”(em torno da história do teatro moderno e contemporâneo), seria investir em um trabalho que pudesse trazer à tona o cuidado e a SINGULARIDADE ARTÍSTICA de cada aluno. Ou seja: o que é próprio do processo de criação de cada um ali? Dentro do contexto normal da disciplina eu já iria falar de processos artísticos contemporâneos, então pensei  que caberia essa dobra.

Foram cinco semanas de trabalho vertical, voltado para a integração e percepção de si em relação ao mundo e ao ofício que resolveram seguir. A primeira ação proposta foi a construção individual da uma GENEALOGIA ARTÍSTICA. Quem são seus pais, mães, tios e primos artísticos? A que linhagem artística cada um se sente pertencente? Esta atividade já trouxe uma outra dimensão para a processualidade de cada um em meio a um sentimento de responsabilidade perante ao legado que cada um se sentira conectado. Este exercício foi-me despertado pelo livro “Roube como um artista”, do artista estadunidense Austin Keaton. O autor compartilha seus pequenos exercícios de criação diários e o “roubar” nada mais é do que o que nos sugere Oswald de Andrade no seu “Manifesto Antropofágico”.

Na outra semana pedi para que cada um trouxesse um FRAGMENTO de trabalho que já tinha realizado, estava realizando ou tinha vontade de realizar. Não precisaria ser nada acabado: era um convite para que cada um pudesse  abrir seu  o  espaço de criação, como se adentrássemos seus respectivos ateliês.

E por último a escrita de um TEXTO BABA, procedimento criado pela psicanalista e crítica de arte Suely Rolnik em suas aulas no Núcleo de Estudos da Subjetividade da PUC de São Paulo. Segundo Rolnik, inspirada por Pierre Fedida, que foi psicanalista de Lygia Clark, as palavras são como a baba do corpo. O exercício do texto baba, portanto, veio como uma provocação à uma certa obediência institucional que todos nós que passamos pela escola exercemos bem. Todos nós carregamos no corpo as marcas da disciplina escolar. E a reproduzimos não só como alunos, mas como professores, pesquisadores e, infelizmente, também como artistas – por mais curioso que isso possa parecer.

A cada encontro muitas trocas se deram: o grupo pode se conhecer mais, cada um pode se expor e crescer com o processo. Fomos cuidando das feridas que foram surgindo, de outras que já existiam e aos poucos, o trabalho foi sendo direcionado para um pequeno projeto que pudesse ser desenvolvido no futuro, fruto dessa caminhada de cinco semanas.

Que paisagens habitam seu corpo?

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por Maíra Gerstner

Acabo de ouvir uma canção que gosto muito, do Zé Miguel Wisnik, chamada “Assum branco”. Essa canção marca uma fase muito especial da minha vida, pois embalou muitas aulas  na época em que eu cursava artes cênicas em São Paulo. Hoje, porém, algo novo se abriu quando ouvi essa canção.

Desde muito menina sou muito ligada às canções. É como se elas atravessassem meu corpo e me ajudassem a decodificar sensações que eu não conseguiria descrever de outra maneira. A versão que mais gosto de “Assum branco” é na voz de Wisnik na parceria com Caetano Veloso. A voz de Caetano fica trêmula, sertaneja, prenhe de emoção. Só hoje captei esse tremor e consegui perceber a homenagem que Wisnik faz a um dos grandes pais do nosso sertão, Luiz Gonzaga.

Pode o sertão habitar o meu corpo? Guimarães Rosa diz que sim. Certa vez eu e uma amiga tentamos explicar a um artista chileno o que era o sertão. Tentamos falar do conceito de latifúndio. Da seca. Mas não. Esquecemos de falar de uma coisa sem fim que nos habita como uma névoa. Como o tremor da voz de Caetano. Como um sentir sem nome que se quer nomear e chamamos de sertão.

O sertão me habita como o Texas que conheci com Wim Wenders, que me foi apresentado por uma querida amiga cineasta, com quem compartilhei tantas imagens latentes que o cinema produz em nós. As paisagens que nos habitam são, portanto, relacionais. Elas evocam encontros, passagens, memórias. Produções de subjetividade que no nosso corpo ganham espaço sem fim, pois somos intensos produtores de imagens.

Por isso o convite que Lygia Clark nos faz para fazer contato com o “vazio pleno” aqui se apresenta como uma necessidade: é preciso que o vazio se instaure para que possamos deslocar nas imagens já conhecidas, nas relações já dadas. As imagens pedem passagem. A vida também. Para que o novo surja é preciso abrir espaço. Fazer contato com aquilo que ainda não se sabe. Mas que tem potência. Que se afirma. E que é puro acontecimento.

O invisível: uma força latente em nossas vidas

por Maíra Gerstner

Desde muito jovem sempre tive muito interesse pelas tidas artes participativas. Penso que mais do que qualquer coisa, meu interesse intuitivo já era em poder trocar com o outro em alguma esfera diferente a partir do que entendemos por “arte”.  Poder ouvir o outro, fazer contato com a sua emoção, com a sua história. Tinha interesse no deslocamento desse lugar do espectador e consequentemente, do lugar de obra acabada.

Com 13 anos eu já fazia teatro e meu pai me presenteou com o livro “Jogos para atores e não atores” de Augusto Boal. Desde então este homem passou a ser uma figura bastante inspiradora na minha vida. Mais do que a sua obra em si, o que me encanta na biografia de Boal foi a sua busca incessante por fazer do teatro um veículo de transformação – do homem e e da sociedade. E para isso abriu mão de fazer obras teatrais propriamente ditas. Depois de sua trajetória como diretor do Teatro de Arena, encenando peças marcantes para a história do teatro no Brasil, Boal passou a se dedicar somente à suas práticas, com atores e não atores, pelo mundo todo.

Ao ler então este livro na minha adolescência, fiquei particularmente intrigada com uma prática que Boal nomeava de “Teatro do invisível”. A ideia é simples: um grupo de jogadores, diante de alguma situação social polêmica, deve combinar entre si um rascunho de cena, para ser feito em algum espaço público, a fim de observar a reação das pessoas diante da questão para então sentirem uma espécie de temperatura do que poderia ser importante discutir diante da situação. Mas o mais importante de tudo é: os espectadores não podem saber que aquilo se trata de uma cena. Eis o “invisível” do Teatro do invisível.

Tive a oportunidade de assistir, participar e interagir com o trabalho “Batucada” de Marcelo Evelin no Festival Panorama. Os bailarinos, nus e mascarados, atravessam os corpos dos espectadores, ao som de um batuque produzido por eles mesmos, com pedaços de panelas e afins. É um trabalho que convida ao grito. É um trabalho que convida ao prazer. É um trabalho que convida ao invisível – pois não sabemos ao certo o que se passa ali. Não sabemos se estamos dentro ou fora. Há uma zona de risco interessante, mas geradora de muitos sentimentos que não sabemos nomear.

Fiquei pensando o quanto de invisível  há quando não temos o controle total de um processo. E o quanto temos que lidar com isso o tempo todo em nossas vidas, porque a única certeza que temos é que estamos vivos no aqui e agora. O invisível é uma força latente e que por vezes se faz presente  com mais evidência em algumas ocasiões.

Algumas práticas são invisíveis quando não deixam rastro definido. Elas deixam marcas a serem decifradas, vestígios, perguntas. A prática do cuidado vai um pouco nesse sentido: é preciso ter certa confiança no invisível, naquilo que não está dado, para que algo novo possa emergir dentro de si. Tenho feito uma prática nos meus workshops chamada de “Esta é minha casa”. Cada pessoa recebe alguns pedaços de papel. Neles, ela deve escrever palavras importantes com questões que tem se deparado no momento. Depois, o convite é montar essas palavras no espaço, como sua casa. Então, há uma troca: uma pessoa visita a cada do outro por vez. E propõe alguma alteração na “casa”. O dono da “casa” volta e vê a mudança. Pode acolhê-la ou não. Podemos fazer algumas visitas e mudanças até que ao final, o grupo possa compartilhar suas sensações diante do que o outro vê na sua casa.

“A casa é o corpo”, já diria Lygia Clark. “O que pode o corpo?”, perguntou Spinoza. São questões que permanecem. E só a nossa confiança nesse invisível é que pode nos auxiliar na investigação de caminhos que ajudem a viver melhor.

A experiência estética como ativadora de novas possibilidades

img_2828por Maíra Gerstner

Durante um tempo meditei sobre o um projeto artístico que estava com vontade de realizar. Ele tinha o título provisório de Do mistério da carne e seu mote era a criação de uma espacialidade na qual as pessoas pudessem deixar registros afetivos, ao mesmo tempo que seriam convidadas a se relacionar com objetos, frases, sons e textos. A ideia principal era pensar sobre isso que nos faz humanos, matéria carne tão misteriosa. Como inspiração poética havia a obra de Hilda Hilst e o mito de Ariadne. Fui convidando alguns amigos artistas pra ir pensando junto, em cafés, caronas e jantares. Mas havia algo em mim que dizia que não se tratava disso. Que não se tratava de fazer uma obra dita como artística. Que seria outra coisa. Pois então o que seria?

Continuei a meditar sobre e fui percebendo que realmente não se tratava de um trabalho artístico. Eu vinha já realizando minha formação em clínica psicomotora, fazendo os workshops com as práticas do “Corpo como território do sensível” e naquele momento não cabia muito pensar em voltar a pensar em arte como obra acabada. Eu estava mais interessada na EXPERIÊNCIA ESTÉTICA que pode se dar no set terapêutico, na relação com um objeto, na apreciação de um alimento… Pensar isso de uma forma mais ampla, no sentido da RELAÇÃO e de práticas que pudessem ATIVAR  esse lugar.

Então, em uma das minhas turmas da Escola de Belas Artes da UFRJ, onde dou aulas no curso de Artes Cênicas, pedi para que os alunos conversassem, em pequenos grupos, sobre experiências estéticas que eles haviam tido e que julgassem divisora de águas em suas vidas. Procurei não definir previamente nenhum conceito. Apenas lancei a provocação, também no intuito de observar o que surgiria como movimento e discussão.

Muitas experiências vieram à tona: as primeiras idas ao teatro ou ao cinema, alguns primeiros mestres, livros, etc. Mas, uma aluna narrou para a turma algo que talvez, aos nossos olhos ocidentais, soe estranho: a experiência com o sagrado como uma experiência estética. Ela contou que seu irmão havia morrido e que diante daquele acontecimento sua família necessitou se conectar a algo. Evangélicos, seguiram juntos para a igreja, que ela nem frequentava. E naquele dia, diante daquele sentimento de sofrimento que todos compartilhavam, o encontro com o sagrado lavou parte daquela dor.

Crenças e críticas institucionais à parte, o que me chamou atenção ao relato de minha aluna foi a sua delicadeza ao compartilhar uma vivência tão íntima e compreender aquilo como uma experiência estética. Foi sim um divisor de águas, como eu pedi a eles que fosse. Mas o que mais aconteceu nesse dia para que ela compreendesse aquilo como estético?

Penso que talvez algo em torno do COMPARTILHAR algo coletivamente, no sentido de um pequeno RITO DE PASSAGEM nos traga um sentimento de pertencença, um sentido comum de estarmos juntos nesse mesmo barco chamado vida. Ele não tem direção certa, somos co-criadores desta jornada. Eis que esse RECORTE NO TEMPO gerou uma mudança na PERCEPÇÃO daqueles que COMPARTILHAVAM aquele momento, no caso a família de minha aluna. E esse movimento talvez tenha possibilitado que juntos, pudessem admirar o trágico inerente ao viver, nossa fragilidade, nossa efemeridade e ao mesmo tempo, nossa potência. Isso tudo pode ser estético porque passa pela nossa elaboração de sentidos e como humanos, estamos o tempo todo tentando dar sentido a isso que chamamos de vida.

Foi então que fui percebendo que aquele meu projeto estava se tornando a Fios de ser, que busca hoje oferecer uma série de trabalhos de integração do ser na sua dimensão sensível. A escuta do corpo é a principal fonte dessas dinâmicas, às quais também são atreladas a dimensão da expressão de cada singularidade e o contorno terapêutico a partir do vivido.

E neste blog, a ideia é poder aproximar aquele que lê dos conceitos e trabalhos desenvolvidos nas práticas artísticas e terapêuticas propostas nos workshops, vivências e atendimentos. Um convite sensorial à experiência com o texto, gerando contato e relação.

De um percurso estético-clínico ou a hora do encontro é também despedida.

por Maíra Gerstner

Maio de 2012. São Pedro da Serra, estado do Rio de Janeiro. Estou numa vivência de trabalho corporal, em grupo, no Sítio Girassol. Alguns tocam, outros são tocados. Formamos duplas. O processo é conduzido pelo terapeuta Daniel Benchimol, figura que será fundamental no meu percurso estético-clínico. Já é o segundo dia de trabalho. Toco o corpo de uma pessoa, mais especificamente suas costas. Daniel sugere que façamos um toque que possa gerar na pessoa uma sensação de abertura nas tensões do corpo do outro. Surpreendentemente, meu parceiro vai sendo tomado por uma emoção e um choro vem à tona. Eu, ingenuamente, fico me perguntando de onde vem aquilo. Das experiências que havia tido, na dança e no teatro, em trabalhos de toque de cunho expressivo, poucas vezes a emoção tinha lugar para estar de fato. Era como se à aquele espaço ela não pertencesse, por mais que o artista lide com o sensível, suas questões pessoais deveriam ser trabalhadas em outro lugar. Salvo algumas exceções. E foi uma dessas exceções que me vieram à mente. Eu tive uma visão: vi meu querido mestre de teatro Antônio Januzelli, mais conhecido como Janô.

Janô estava ali, pensei. Foi quando ao ser tocada eu também fui surpreendida por uma emoção. Não sabia de onde ela vinha. Ela não tinha cor, cheiro, forma. ELA NÃO TINHA IMAGEM. Era pura sensação. Era como se depois de tocar outra pessoa que vi chorar eu tivesse me permitido chorar também. Aqui isso pode ser, Maíra.

Essa vivência foi o marco fundante de todo o trabalho que vim desenvolver posteriormente. Eu vinha do meio artístico e inclusive, o ano de 2012 estava sendo um ano bastante produtivo nesse sentido. Minha carreira de atriz estava caminhando, fiz duas peças, com uma equipe admirável, etc, mas eu tinha a sensação de que os artistas estavam perdendo tempo. Que precisávamos nos apropriar daquilo que as terapias corporais permitiam acontecer, ou seja, convocar o CORPO para fazer CONTATO com a EMOÇÃO.

Foi então tive a intuição de estudar a obra de Lygia Clark. Conhecia muito pouco, mas sabia que ela havia  desbravado um terreno “proibido”. Digo assim em aspas porque Lygia talvez tenha aberto um portal existencial para alguns artistas que se viram desejosos de criar uma DOBRA CLÍNICA a partir de sua POÉTICA ARTÍSTICA. Continua sendo arte e também é clínica.

Então encontrei no trabalho de Psicomotricidade Relacional Somática desenvolvida no Instituto Anthropos, no Rio de Janeiro, um espaço de formação terapêutica que me permitiu, ao longo de três anos, investigar aproximações entre arte e clínica, sempre apoiadas na dimensão do VIVIDO. Aquilo que gera marca no corpo revela sua processualidade: e nisso reside um dos encontros entre arte e clínica.

Hoje, tanto nos workshops, como nos grupos de trabalho continuados e também nos atendimentos individuais, tenho percebido que é possível investir numa curadoria de si, num espaço em que a criação e a investigação daquilo que é próprio de cada um pode ser encaminhado como material de crescimento. É como se aquilo que, na dimensão estética ganha LINGUAGEM, na clínica ganhasse PASSAGEM. E aí não importa tanto se é uma ou outra, porque tudo é EXPRESSÃO do dizer de cada um. No puro acontecimento.

A hora do encontro é também despedida, como canta Milton Nascimento. É a dádiva do instante. E só a ele poderemos recorrer. É só a ele que podemos reverenciar. E é só ele que nos faz viver melhor na medida em que vamos nos apropriando dos nossos processos estético-clínicos, com as suas suculentas flores às vezes difíceis de saborear, mas que também nos convidam a perceber que a vida tem mais sabores do que aqueles que já julgamos conhecer.