E ele me disse: “Foi como fazer uma viagem”.

por Maíra Gerstner

Sábado. Roda final após a vivência.
Depois de um dia dedicado a si, ao outro, à escuta, uma roda de partilha.
Sempre gosto de pedir para que cada um possa compartilhar o um pouco do que viveu com o grupo.
E neste dia, esse participante, compartilhou essa pérola. Foi como ter feito uma viagem.

O que me remete ao primeiro convite do trabalho. À primeira pergunta.
QUE PAISAGENS HABITAM O SEU CORPO?
E quanto mais faço essa pergunta, mais percebo os diversos significados que cada um dá para a ideia de PAISAGEM.
Ao propor essa pergunta, meu intuito é provocar o contato com LUGARES.

 

LUGARES CONCRETOS. Com cheiros, sabores, cores e pessoas. Biosferas. Lugares míticos que talvez nunca tenhamos olhado, mas que nos habitam e que alguns encontros nos fazem acordar.
Mas para que fazer esse contato?
O que ele pode proporcionar na vida de cada um?

Vivemos a cada dia um mundo que nos convoca à desorganização e desconexão total.
Que nos quer mais producentes, mais ativos, mais rápidos, mais, mais e mais.
Mais imagens. Mais excesso. Mais imagens e menos paisagens.
Nosso corpo produz imagens a todo tempo.
Se, para Walter Benjamin, a reprodutibilidade técnica dos aparelhos produtores de imagem mudou completamente a nossa relação com o mundo, o que dizer dos atuais aparelhos que vibram a todo instante desejosos de uma nova curtida?

MAS AS PAISAGENS CONTINUAM A NOS HABITAR. Elas prescindem das imagens, elas tem mais força, elas evocam um lugar muito primeiro que faz A VIDA HABITAR EM NÓS. Nosso corpo é vida e ele edita as imagens que produz. Mas, para que essas imagens possam ser editadas, é preciso estar muito em contato, é preciso estar muito no corpo, é preciso sentir. É preciso estar. É PRECISO DEIXAR QUE AS PAISAGENS NOS HABITE.

Volto então ao que disse ele.
Volto à VIAGEM que ele fez.
Pelo corpo, pela escuta, pelo sensível.
Pelo olhar de criança que, muito atenta, olha a janela do ônibus, carro ou avião.
Essa criança está em nós.
E como as paisagens, quer poder vibrar.
E viver a vida a partir de novas perspectivas.

E ela me disse: “O objeto é um aliado”.

por Maíra Gerstner

Foto tirada durante um atendimento individual.

Cada encontro é sempre uma deriva. Não se sabe ao certo o que esperar, nem de um lado, nem do outro. Mas cada encontro se dá entre corpos e se configura no instante. E é nele que podemos realmente criar algo. Os encontros individuais que venho realizando pela Fios do ser com  pessoas que procuram este trabalho com o objetivo de fazer contato com alguma questão a partir da investigação de uma poética artística têm me ensinado que a clínica, assim como a arte, acontecem em algum lugar muito sutil, mas que no encontro com o outro, há uma espécie de testemunho.

Eu busco escutar. Escuto histórias, corpos, convido ao contato do sentir. De como a palavra faz reverberar no corpo. Junto com este outro, cliente, provoco outras possibilidades de olhar para este acontecimento vida, tão misterioso. E para o qual devemos fazer total reverência. Como dizia minha querida terapeuta carioca Paula Galvão “A vida, ela é a grande senhora”. Foi Paula quem me falou de Elizabeth Kubler-Ross, médica suíça que dedicou sua vida na pesquisa do morrer. Foi Paula quem me deu o primeiro livro de Suely Rolnik (dedicado à Lygia Clark). Foi Paula que me ouviu falar o quanto gostaria de fazer um trabalho em que pudesse juntar processos artísticos a um contorno terapêutico. Foi também Paula que me ouviu chorar por Bel, amiga querida que adoeceu e que me fez olhar com outros olhos para o rumo que minha vida artística iria tomar. Foi com o apoio de Paula, que pude constatar que o corpo tem uma sabedoria. Hoje meu corpo conhece esse lugar de cuidado que o corpo de um terapeuta pode trazer.

“O corpo do terapeuta é um objeto simbólico”, uma das premissas  de trabalho mais ouvidas durante o curso de psicomotricidade no Instituto Anthropos, no Rio de Janeiro, diz respeito a esse movimento de relação que é o acontecimento terapêutico.  A formação em psicomotricidade me ajudou a compreender que não há tanta diferença entre arte e clínica quando falamos em processo. O corpo é processo. A arte é processo. Mas vivemos em um mundo em que tanto um quanto o outro foram cindidos de suas necessidades vitais de ser apenas isso, processo, construção e cuidado.

Quando ela, a cliente, me diz que o objeto é um aliado, faz referência não só aos objetos relacionais de Lygia Clark usados em algumas sessões, mas também alguns objetos que foram usados como disparadores de outros processos: barbantes, linhas, papéis.  Tais objetos, nas mãos dela, sempre me surpreendiam, pois tinham consigo sentidos muito particulares de ser. Relacionais, aliados, porque não importam o que representam, mas o que fazem presentificar no aqui e agora.

O que me convoca para estar com o outro, numa dimensão terapêutica, é muito próximo da convocação de um artista para a criação de algo. Mas no setting diluímos a obra. Ela se torna a própria vida. Ela é a grande senhora. E é com ela que devemos seguir, confiantes, de que o mistério, um dia, há de se revelar.

Carta a Lygia Clark

    Por Maíra Gerstner

Querida Lygia,

Demorei a te escrever.

Tenho trabalhado com o material que você nos deixou. Com o seu legado.

É como seu eu me sentisse responsável por ele. E tenho percebido que outros também se sentem. É bom saber que hoje podemos nos sentir menos sós do que você se sentiu, Lygia.

Eu já te agradeci tanto, Lygia, pela coragem que você teve. De avivar seus abismos, atravessá-los e criar algo que não tem nome. Este legado é o maior. A sua coragem de ser o que se é. Sem as catalogações dos sistemas.

Mas, Lygia, eu queria te contar de um grupo que tenho trabalhado.

Estamos em um momento especial. Há algo em torno de você. Mas há algo que é nosso. Um emaranhado. Você é nossa Ariadne, nossa aracniana, nossa fiadeira, nossa mulher velha.

Lygia eu tenho me perguntado sobre o que ainda pode a experiência estética e sobre esse campo que você abriu. Não me interessa hoje, Lygia, entender onde começa a clínica ou onde começa a criação. O que me interessa, Lygia, mestra, é compreender a linguagem como passagem. Como algo que pode nos fazer viver melhor. Seja lá o que se quiser viver, mas fazer para a si a sua curadoria de vida.

Eu agradeço a você e a esse grupo, Lygia. São pessoas que estão em contato com essa sua vibração que nos atravessa, atravessa nossos corpos. É um sopro de vida, é imanente, é para além daquilo que o mal da representação nos guardou.

É poder afirmar a vida.

É tão bom poder contar contigo, Lygia.

E saber que juntos, somos mais fortes.

Conto com você, agora, para poder seguir com este trabalho.

Afirmando que a arte também pode ser clínica. Também pode ser tantas coisas.

Cabe a cada um de nós encontrar para si a terceira margem do rio.

Sou grata a você por ter me ajudado neste encontro.

Espero agora poder contribuir para que outras pessoas tenham os seus.

14 de outubro de 2016

PS: o grupo citado no texto realiza um trabalho continuado com coordenação minha no Espaço Fixos e Fluxos (Parque da Previdência, São Paulo) desde março de 2016.

 

A “curadoria de si” com os alunos da EBA-UFRJ

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*fotos dos trabalhos desenvolvidos pelos alunos Julia Faria, Lery Guerato e Felipe Costa.

por Maíra Gerstner

Depois de um incêndio no prédio em que estudavam, os alunos do curso de cenografia e indumentária da EBA-UFRJ, para os quais dei aula durante dois anos, ficaram sem sala de aula, sem materiais, sem espaço. Ficaram quase sem esperança. Há já presente situação de precariedade era uma realidade antes mesmo do incidente. Fomos todos, alunos e professores, realocados. Cinco semanas se passaram até que pudemos, finalmente, voltar a trabalhar.

Voltaram muito abalados. Muito tristes. Eu, como professora, entendi ali como a clínica que venho pensando poderia de fato acontecer. Era preciso cuidar daqueles jovens corpos. Era preciso que eles recuperassem algo de fundamental que, por pouco, poderia ir para o ralo, juntamente com toda a água que foi necessária para apagar o fogo que por ali havia passado.

Resolvi então arriscar: mais importante do que qualquer conteúdo dentro da disciplina que eu ministrava, “Cena e dramaturgia IV”(em torno da história do teatro moderno e contemporâneo), seria investir em um trabalho que pudesse trazer à tona o cuidado e a SINGULARIDADE ARTÍSTICA de cada aluno. Ou seja: o que é próprio do processo de criação de cada um ali? Dentro do contexto normal da disciplina eu já iria falar de processos artísticos contemporâneos, então pensei  que caberia essa dobra.

Foram cinco semanas de trabalho vertical, voltado para a integração e percepção de si em relação ao mundo e ao ofício que resolveram seguir. A primeira ação proposta foi a construção individual da uma GENEALOGIA ARTÍSTICA. Quem são seus pais, mães, tios e primos artísticos? A que linhagem artística cada um se sente pertencente? Esta atividade já trouxe uma outra dimensão para a processualidade de cada um em meio a um sentimento de responsabilidade perante ao legado que cada um se sentira conectado. Este exercício foi-me despertado pelo livro “Roube como um artista”, do artista estadunidense Austin Keaton. O autor compartilha seus pequenos exercícios de criação diários e o “roubar” nada mais é do que o que nos sugere Oswald de Andrade no seu “Manifesto Antropofágico”.

Na outra semana pedi para que cada um trouxesse um FRAGMENTO de trabalho que já tinha realizado, estava realizando ou tinha vontade de realizar. Não precisaria ser nada acabado: era um convite para que cada um pudesse  abrir seu  o  espaço de criação, como se adentrássemos seus respectivos ateliês.

E por último a escrita de um TEXTO BABA, procedimento criado pela psicanalista e crítica de arte Suely Rolnik em suas aulas no Núcleo de Estudos da Subjetividade da PUC de São Paulo. Segundo Rolnik, inspirada por Pierre Fedida, que foi psicanalista de Lygia Clark, as palavras são como a baba do corpo. O exercício do texto baba, portanto, veio como uma provocação à uma certa obediência institucional que todos nós que passamos pela escola exercemos bem. Todos nós carregamos no corpo as marcas da disciplina escolar. E a reproduzimos não só como alunos, mas como professores, pesquisadores e, infelizmente, também como artistas – por mais curioso que isso possa parecer.

A cada encontro muitas trocas se deram: o grupo pode se conhecer mais, cada um pode se expor e crescer com o processo. Fomos cuidando das feridas que foram surgindo, de outras que já existiam e aos poucos, o trabalho foi sendo direcionado para um pequeno projeto que pudesse ser desenvolvido no futuro, fruto dessa caminhada de cinco semanas.

Que paisagens habitam seu corpo?

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por Maíra Gerstner

Acabo de ouvir uma canção que gosto muito, do Zé Miguel Wisnik, chamada “Assum branco”. Essa canção marca uma fase muito especial da minha vida, pois embalou muitas aulas  na época em que eu cursava artes cênicas em São Paulo. Hoje, porém, algo novo se abriu quando ouvi essa canção.

Desde muito menina sou muito ligada às canções. É como se elas atravessassem meu corpo e me ajudassem a decodificar sensações que eu não conseguiria descrever de outra maneira. A versão que mais gosto de “Assum branco” é na voz de Wisnik na parceria com Caetano Veloso. A voz de Caetano fica trêmula, sertaneja, prenhe de emoção. Só hoje captei esse tremor e consegui perceber a homenagem que Wisnik faz a um dos grandes pais do nosso sertão, Luiz Gonzaga.

Pode o sertão habitar o meu corpo? Guimarães Rosa diz que sim. Certa vez eu e uma amiga tentamos explicar a um artista chileno o que era o sertão. Tentamos falar do conceito de latifúndio. Da seca. Mas não. Esquecemos de falar de uma coisa sem fim que nos habita como uma névoa. Como o tremor da voz de Caetano. Como um sentir sem nome que se quer nomear e chamamos de sertão.

O sertão me habita como o Texas que conheci com Wim Wenders, que me foi apresentado por uma querida amiga cineasta, com quem compartilhei tantas imagens latentes que o cinema produz em nós. As paisagens que nos habitam são, portanto, relacionais. Elas evocam encontros, passagens, memórias. Produções de subjetividade que no nosso corpo ganham espaço sem fim, pois somos intensos produtores de imagens.

Por isso o convite que Lygia Clark nos faz para fazer contato com o “vazio pleno” aqui se apresenta como uma necessidade: é preciso que o vazio se instaure para que possamos deslocar nas imagens já conhecidas, nas relações já dadas. As imagens pedem passagem. A vida também. Para que o novo surja é preciso abrir espaço. Fazer contato com aquilo que ainda não se sabe. Mas que tem potência. Que se afirma. E que é puro acontecimento.

O invisível: uma força latente em nossas vidas

por Maíra Gerstner

Desde muito jovem sempre tive muito interesse pelas tidas artes participativas. Penso que mais do que qualquer coisa, meu interesse intuitivo já era em poder trocar com o outro em alguma esfera diferente a partir do que entendemos por “arte”.  Poder ouvir o outro, fazer contato com a sua emoção, com a sua história. Tinha interesse no deslocamento desse lugar do espectador e consequentemente, do lugar de obra acabada.

Com 13 anos eu já fazia teatro e meu pai me presenteou com o livro “Jogos para atores e não atores” de Augusto Boal. Desde então este homem passou a ser uma figura bastante inspiradora na minha vida. Mais do que a sua obra em si, o que me encanta na biografia de Boal foi a sua busca incessante por fazer do teatro um veículo de transformação – do homem e e da sociedade. E para isso abriu mão de fazer obras teatrais propriamente ditas. Depois de sua trajetória como diretor do Teatro de Arena, encenando peças marcantes para a história do teatro no Brasil, Boal passou a se dedicar somente à suas práticas, com atores e não atores, pelo mundo todo.

Ao ler então este livro na minha adolescência, fiquei particularmente intrigada com uma prática que Boal nomeava de “Teatro do invisível”. A ideia é simples: um grupo de jogadores, diante de alguma situação social polêmica, deve combinar entre si um rascunho de cena, para ser feito em algum espaço público, a fim de observar a reação das pessoas diante da questão para então sentirem uma espécie de temperatura do que poderia ser importante discutir diante da situação. Mas o mais importante de tudo é: os espectadores não podem saber que aquilo se trata de uma cena. Eis o “invisível” do Teatro do invisível.

Tive a oportunidade de assistir, participar e interagir com o trabalho “Batucada” de Marcelo Evelin no Festival Panorama. Os bailarinos, nus e mascarados, atravessam os corpos dos espectadores, ao som de um batuque produzido por eles mesmos, com pedaços de panelas e afins. É um trabalho que convida ao grito. É um trabalho que convida ao prazer. É um trabalho que convida ao invisível – pois não sabemos ao certo o que se passa ali. Não sabemos se estamos dentro ou fora. Há uma zona de risco interessante, mas geradora de muitos sentimentos que não sabemos nomear.

Fiquei pensando o quanto de invisível  há quando não temos o controle total de um processo. E o quanto temos que lidar com isso o tempo todo em nossas vidas, porque a única certeza que temos é que estamos vivos no aqui e agora. O invisível é uma força latente e que por vezes se faz presente  com mais evidência em algumas ocasiões.

Algumas práticas são invisíveis quando não deixam rastro definido. Elas deixam marcas a serem decifradas, vestígios, perguntas. A prática do cuidado vai um pouco nesse sentido: é preciso ter certa confiança no invisível, naquilo que não está dado, para que algo novo possa emergir dentro de si. Tenho feito uma prática nos meus workshops chamada de “Esta é minha casa”. Cada pessoa recebe alguns pedaços de papel. Neles, ela deve escrever palavras importantes com questões que tem se deparado no momento. Depois, o convite é montar essas palavras no espaço, como sua casa. Então, há uma troca: uma pessoa visita a cada do outro por vez. E propõe alguma alteração na “casa”. O dono da “casa” volta e vê a mudança. Pode acolhê-la ou não. Podemos fazer algumas visitas e mudanças até que ao final, o grupo possa compartilhar suas sensações diante do que o outro vê na sua casa.

“A casa é o corpo”, já diria Lygia Clark. “O que pode o corpo?”, perguntou Spinoza. São questões que permanecem. E só a nossa confiança nesse invisível é que pode nos auxiliar na investigação de caminhos que ajudem a viver melhor.

A experiência estética como ativadora de novas possibilidades

img_2828por Maíra Gerstner

Durante um tempo meditei sobre o um projeto artístico que estava com vontade de realizar. Ele tinha o título provisório de Do mistério da carne e seu mote era a criação de uma espacialidade na qual as pessoas pudessem deixar registros afetivos, ao mesmo tempo que seriam convidadas a se relacionar com objetos, frases, sons e textos. A ideia principal era pensar sobre isso que nos faz humanos, matéria carne tão misteriosa. Como inspiração poética havia a obra de Hilda Hilst e o mito de Ariadne. Fui convidando alguns amigos artistas pra ir pensando junto, em cafés, caronas e jantares. Mas havia algo em mim que dizia que não se tratava disso. Que não se tratava de fazer uma obra dita como artística. Que seria outra coisa. Pois então o que seria?

Continuei a meditar sobre e fui percebendo que realmente não se tratava de um trabalho artístico. Eu vinha já realizando minha formação em clínica psicomotora, fazendo os workshops com as práticas do “Corpo como território do sensível” e naquele momento não cabia muito pensar em voltar a pensar em arte como obra acabada. Eu estava mais interessada na EXPERIÊNCIA ESTÉTICA que pode se dar no set terapêutico, na relação com um objeto, na apreciação de um alimento… Pensar isso de uma forma mais ampla, no sentido da RELAÇÃO e de práticas que pudessem ATIVAR  esse lugar.

Então, em uma das minhas turmas da Escola de Belas Artes da UFRJ, onde dou aulas no curso de Artes Cênicas, pedi para que os alunos conversassem, em pequenos grupos, sobre experiências estéticas que eles haviam tido e que julgassem divisora de águas em suas vidas. Procurei não definir previamente nenhum conceito. Apenas lancei a provocação, também no intuito de observar o que surgiria como movimento e discussão.

Muitas experiências vieram à tona: as primeiras idas ao teatro ou ao cinema, alguns primeiros mestres, livros, etc. Mas, uma aluna narrou para a turma algo que talvez, aos nossos olhos ocidentais, soe estranho: a experiência com o sagrado como uma experiência estética. Ela contou que seu irmão havia morrido e que diante daquele acontecimento sua família necessitou se conectar a algo. Evangélicos, seguiram juntos para a igreja, que ela nem frequentava. E naquele dia, diante daquele sentimento de sofrimento que todos compartilhavam, o encontro com o sagrado lavou parte daquela dor.

Crenças e críticas institucionais à parte, o que me chamou atenção ao relato de minha aluna foi a sua delicadeza ao compartilhar uma vivência tão íntima e compreender aquilo como uma experiência estética. Foi sim um divisor de águas, como eu pedi a eles que fosse. Mas o que mais aconteceu nesse dia para que ela compreendesse aquilo como estético?

Penso que talvez algo em torno do COMPARTILHAR algo coletivamente, no sentido de um pequeno RITO DE PASSAGEM nos traga um sentimento de pertencença, um sentido comum de estarmos juntos nesse mesmo barco chamado vida. Ele não tem direção certa, somos co-criadores desta jornada. Eis que esse RECORTE NO TEMPO gerou uma mudança na PERCEPÇÃO daqueles que COMPARTILHAVAM aquele momento, no caso a família de minha aluna. E esse movimento talvez tenha possibilitado que juntos, pudessem admirar o trágico inerente ao viver, nossa fragilidade, nossa efemeridade e ao mesmo tempo, nossa potência. Isso tudo pode ser estético porque passa pela nossa elaboração de sentidos e como humanos, estamos o tempo todo tentando dar sentido a isso que chamamos de vida.

Foi então que fui percebendo que aquele meu projeto estava se tornando a Fios de ser, que busca hoje oferecer uma série de trabalhos de integração do ser na sua dimensão sensível. A escuta do corpo é a principal fonte dessas dinâmicas, às quais também são atreladas a dimensão da expressão de cada singularidade e o contorno terapêutico a partir do vivido.

E neste blog, a ideia é poder aproximar aquele que lê dos conceitos e trabalhos desenvolvidos nas práticas artísticas e terapêuticas propostas nos workshops, vivências e atendimentos. Um convite sensorial à experiência com o texto, gerando contato e relação.

De um percurso estético-clínico ou a hora do encontro é também despedida.

por Maíra Gerstner

Maio de 2012. São Pedro da Serra, estado do Rio de Janeiro. Estou numa vivência de trabalho corporal, em grupo, no Sítio Girassol. Alguns tocam, outros são tocados. Formamos duplas. O processo é conduzido pelo terapeuta Daniel Benchimol, figura que será fundamental no meu percurso estético-clínico. Já é o segundo dia de trabalho. Toco o corpo de uma pessoa, mais especificamente suas costas. Daniel sugere que façamos um toque que possa gerar na pessoa uma sensação de abertura nas tensões do corpo do outro. Surpreendentemente, meu parceiro vai sendo tomado por uma emoção e um choro vem à tona. Eu, ingenuamente, fico me perguntando de onde vem aquilo. Das experiências que havia tido, na dança e no teatro, em trabalhos de toque de cunho expressivo, poucas vezes a emoção tinha lugar para estar de fato. Era como se à aquele espaço ela não pertencesse, por mais que o artista lide com o sensível, suas questões pessoais deveriam ser trabalhadas em outro lugar. Salvo algumas exceções. E foi uma dessas exceções que me vieram à mente. Eu tive uma visão: vi meu querido mestre de teatro Antônio Januzelli, mais conhecido como Janô.

Janô estava ali, pensei. Foi quando ao ser tocada eu também fui surpreendida por uma emoção. Não sabia de onde ela vinha. Ela não tinha cor, cheiro, forma. ELA NÃO TINHA IMAGEM. Era pura sensação. Era como se depois de tocar outra pessoa que vi chorar eu tivesse me permitido chorar também. Aqui isso pode ser, Maíra.

Essa vivência foi o marco fundante de todo o trabalho que vim desenvolver posteriormente. Eu vinha do meio artístico e inclusive, o ano de 2012 estava sendo um ano bastante produtivo nesse sentido. Minha carreira de atriz estava caminhando, fiz duas peças, com uma equipe admirável, etc, mas eu tinha a sensação de que os artistas estavam perdendo tempo. Que precisávamos nos apropriar daquilo que as terapias corporais permitiam acontecer, ou seja, convocar o CORPO para fazer CONTATO com a EMOÇÃO.

Foi então tive a intuição de estudar a obra de Lygia Clark. Conhecia muito pouco, mas sabia que ela havia  desbravado um terreno “proibido”. Digo assim em aspas porque Lygia talvez tenha aberto um portal existencial para alguns artistas que se viram desejosos de criar uma DOBRA CLÍNICA a partir de sua POÉTICA ARTÍSTICA. Continua sendo arte e também é clínica.

Então encontrei no trabalho de Psicomotricidade Relacional Somática desenvolvida no Instituto Anthropos, no Rio de Janeiro, um espaço de formação terapêutica que me permitiu, ao longo de três anos, investigar aproximações entre arte e clínica, sempre apoiadas na dimensão do VIVIDO. Aquilo que gera marca no corpo revela sua processualidade: e nisso reside um dos encontros entre arte e clínica.

Hoje, tanto nos workshops, como nos grupos de trabalho continuados e também nos atendimentos individuais, tenho percebido que é possível investir numa curadoria de si, num espaço em que a criação e a investigação daquilo que é próprio de cada um pode ser encaminhado como material de crescimento. É como se aquilo que, na dimensão estética ganha LINGUAGEM, na clínica ganhasse PASSAGEM. E aí não importa tanto se é uma ou outra, porque tudo é EXPRESSÃO do dizer de cada um. No puro acontecimento.

A hora do encontro é também despedida, como canta Milton Nascimento. É a dádiva do instante. E só a ele poderemos recorrer. É só a ele que podemos reverenciar. E é só ele que nos faz viver melhor na medida em que vamos nos apropriando dos nossos processos estético-clínicos, com as suas suculentas flores às vezes difíceis de saborear, mas que também nos convidam a perceber que a vida tem mais sabores do que aqueles que já julgamos conhecer.

Pensando arte e cuidado a partir da ideia de curadoria

por Maíra Gerstner

Li recentemente uma entrevista de Hans Ulrich Obrist – um dos curadores mais ativos na contemporaneidade – em que ele dizia que quando criança, na Suíça, vivia em meio a tantos acontecimentos culturais de seu país e pensava que no futuro, gostaria de ajudar os artistas. E se tornou curador de arte. A palavra CURADORIA tem essa raiz bem próxima da ideia de CUIDAR. E é por isso que vou me apropriar dela para pensar ARTE e CUIDADO para um pouco além da esfera expositiva propriamente dita.

Estive visitando a última Bienal. Estava com muita expectativa, principalmente ao começar pelo restaurante-obra de Jorge Menna Barreto, começar nesse movimento de nutrição… Fui sozinha. Achei que ia ser bom ter um tempo entre mim e as obras; poder sentir, estar. Mas ao passo que fui entrando e buscando contato com os trabalhos, fui sentindo falta de algo. Não sabia bem o que era. Fui seguindo e fui lembrando dos meus anos como educadora de museu, das peças teatrais que fiz em espaços expositivos, enfim, de como o estar numa galeria de arte sempre me encantou.

Pois então eu me dei conta: sentia falta de RELAÇÃO. Talvez eu não tenha feito a melhor escolha em ir só, mas de verdade foi o estar só na galeria que me fez lembrar os tantos grupos que acompanhei por tantas exposições, as atividades todas que elaborei. Comecei então a observar os grupos que ali estavam, acompanhados pelos educadores. Essa ideia de poder fazer CONTATO a partir de uma obra sempre me encantou. Fazer da própria obra um objeto relacional, numa visita. A cada visita, um roteiro. A cada visita, uma curadoria. A cada curadoria, novas possibilidades.

Venho há algum tempo pensando em como o conceito de curadoria pode contribuir para a relação entre ARTE e CUIDADO. Se o cuidar está intrínseco ao fazer curatorial, como podemos pensá-lo para além do cuidar das obras de arte ou dos eventos estéticos? O que poderia ser o FAZER CURATORIAL na vida de cada ser humano?

Gosto do conceito de Michel Foucault acerca do CUIDADO DE SI. Ele nos remonta à Grécia, quando a prática do cuidado de si estava atrelada à dimensão de uma prática ética diante da vida, ou seja, uma prática regada à escolhas, recortes e possibilidades para o VIVER. Aí, a CRIAÇÃO como CUIDADO DE SI nos exige um investimento CURATORIAL diante da nossa existência, deslocando nossas PAISAGENS AFETIVAS, tudo aquilo que nos habita como imagem, espaço e acontecimento.

Tive um professor-terapeuta querido, o mestre Pedro Honório, que sempre dizia que “Viver não tem garantia”e mais “Nem tudo que eu quero, eu posso, mas do que eu posso, o que eu quero?”. Essa negociações são um exercício curatorial diante da vida. São um exercício de cuidado. É a clínica na sua potência expressiva, compreendendo a vida como constante movimento de criação – ela não está dada, ela é invenção à cada instante e nos convida a cada um a realizar seu exercício curatorial no existir.

 

 

 

 

 

 

O que você faz para criar?

por Maíra Gerstner

Nos últimos anos tenho me dedicado a pensar e viver processos de criação nos campos artístico, pedagógico e terapêutico, e em todas estas esferas percebo uma espécie de ponto comum que diz respeito a uma noção muito interessante, a do COMPARTILHAR. No trabalho com jovens artistas, venho observando  a importância do TRABALHO SOBRE SI numa investigação de percursos que vão revelando cada um sua SINGULARIDADE. E é nesse sentido que eu gostaria de fazer o convite deste texto: O QUE VOCÊ FAZ PARA CRIAR? Uma aluna uma vez me disse que não gostava da palavra criação, que ela já foi tomada de vários outros sentidos… Ela sugeriu TRANSFORMAÇÃO. E eu gostei. Seja criação, transformação ou produção, estamos falando da possibilidade de gerar NOVOS MODOS DE VIDA, pensando a criação no sentido mais amplo do termo, ou seja, no que tange o sentido mais profundo do VIVER.

Quando eu era menina adorava observar e estar com minha avó na cozinha. Minha avó cozinha desde os nove anos, então hoje consigo ver o quanto essa experiência sensorial do nutrir está presente na pele dela. Eu ficava encantada com toda e qualquer PROCESSUALIDADE inerente àquele fazer: fosse picar coisas para refogar, fosse esperar o pão crescer, fosse sentir o cheiro da fritura que vinha quando uma carne ou peixe eram empanados para o almoço. Hoje quase não como fritura, mas minha vizinha ao lado come. E eu adoro sentir o cheirinho que sempre vem da sua cozinha: é o mesmo cheiro que tinha a cozinha de minha avó. Talvez essa vizinha tenha muito em comum com minha avó e o encontro com ela ativa em mim uma espécie de PAISAGEM AFETIVA.

Essa PAISAGEM AFETIVA da minha avó, ativada no encontro com minha vizinha, habita o meu corpo e revela algo do meu vivido. Este vivido também revela algo do âmbito processual, ou seja, de um SABER COMPARTILHADO. Saber não no sentido altivo, mas no sentido de um interesse no mundo, uma processualidade compartilhada, um modo de fazer. Hoje a cozinha ocupa um espaço bastante importante no meu VIVER. Com certeza não é a mesma cozinha da minha avó, mas tem a ver com algo que vivemos juntas nesse campo processual.

A cozinha fala de mim, do meu estar no mundo da minha necessidade mais vital de nutrição e da minha relação com meu corpo. Às vezes tudo o que preciso fazer é parar um pouco  e ir para a cozinha fazer uma comida – e sei que muitas pessoas que apreciam esse lugar também precisam dessa pausa às vezes. Além disso, na cozinha muito se fia: muitos outros saberes são compartilhados, muitas histórias são vividas, muitos sabores são sentidos.

Cada encontro potente de nossa história pode revelar uma PAISAGEM AFETIVA presente em nosso corpo. Ela não é fixa, ela é movente. As paisagens vão nos habitanto a partir de SABERES COMPARTILHADOS e vão se deslocando na medida em que vamos CRIANDO outras possibilidades para essa partilha, em outros e outros encontros. Cada paisagem revela um pouco de nós, um pouco de nossa histórias, de nossas partilhas, nossas marcas e daquilo que vai se tornando vital, urgente, na nossa existência.

Então, o que você faz para criar?

O trabalho acerca das PAISAGENS AFETIVAS  tem sido um grande aprendizado para mim nos grupos com os quais tenho trabalhado, em workshops e vivências. Elas revelam imagens às vezes muito antigas e fazer contato com elas, pode ser grande alento para podermos seguir mais vibrantes por essas veredas da vida.